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Brasileiros e estrangeiros deixam país por medo de caos na condução da pandemia

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Governo do Amazonas erra e pânico cresce com avanço da Covid-19


VIÇOSA, MG (FOLHAPRESS) - Moradora do Rio de Janeiro e casada com um russo, a advogada brasileira Agnes Christian, 38, não quis pagar para ver o que vai acontecer no Brasil durante a pandemia de coronavírus. No sábado (14), logo depois de dar uma aula, recebeu um telefonema de amigos de Moscou. "Eles me disseram: 'Tem um voo saindo em cinco horas daí. Os números [da pandemia] no Brasil não estão bons, seu presidente é maluco. Não quer vir para cá?'", conta.

Agnes foi. Arrumou a mala e saiu correndo para o aeroporto. "Conheço o Rio de Janeiro. Quando começar a faltar atendimento médico e comida, vai virar barbárie", diz.

Para ela, na Rússia a situação está mais controlada porque o governo vem desde janeiro tomando medidas preventivas. "Se você tem suspeita da doença, vai uma ambulância até a sua casa te testar e te atender. Teve uma moça infectada que pegou um trem. Eles correram atrás de todo mundo que dividiu a cabine com ela para testar. Uma pessoa se recusou a fazer quarentena e foi processada."

A Rússia registrou 658 casos e apenas uma morte pelo coronavírus, mas, após questionamentos internos e externos, o país admitiu nesta terça (24) que o baixo número se deve à subnotificação por falta de exames.

Agnes diz que conhece cinco russos que vivem no Brasil e decidiram ir para o exterior nesse período de quarentena. Um deles é o analista financeiro Sergey Sergienko, 50, que mora há quatro anos no Rio e decidiu se refugiar em Londres nas próximas semanas. Chegou neste domingo (22).

"Mesmo com vários casos aqui, acho que por causa da pobreza e do sistema de saúde a situação no Brasil será muito, muito pior que na Europa", afirma.

A esposa brasileira de Sergey ficou no Rio --segundo ele, por ser enfermeira e ter uma filha e dois netos, ela preferiu não sair.

Mesmo com o Reino Unido com grande número de casos - são mais de 8.000 e 420 mortes -, o russo diz que se sente tranquilo com os cuidados que estão sendo adotados durante a pandemia. "Aqui tudo é organizado. Quase todas as lojas estão fechadas, no mercado só deixam entrar três pessoas por vez. As ruas estão desertas, existe disciplina. Quero voltar ao Brasil porque é o melhor país do mundo, mas preciso esperar. Acho que aqui é o melhor lugar para mim no momento."

Com o recuo da epidemia na China, que reduziu drasticamente a transmissão local, está começando a acontecer algo que parecia impensável há algumas semanas: chineses que vivem em outros países indo para lá para se proteger. "Muitos que moram na Europa, por exemplo, estão voltando", conta Si Liao, professora de mandarim em São Paulo.

No Brasil, também há imigrantes fazendo isso. É o caso do empresário Guoxiong Wang, 38, que vive há oito anos em São Paulo e tomou a decisão de voltar para a China de um dia para o outro, em 10 de março.

"Vi que meus clientes não se importavam com a doença. Eles me zoavam por usar máscara. Um taxista me disse que a vida e a morte são determinadas por Deus, que não faz diferença os cuidados que a gente toma. As ruas estavam cheias, todo mundo desprotegido. Tive medo de que acontecesse o mesmo que na Itália. No dia seguinte, voei para a China."

Ele também diz temer a falta de leitos no sistema de saúde, caso a epidemia se alastre. "Não tenho certeza se o governo brasileiro está pronto e se os hospitais possuem camas, equipamentos e recursos humanos adequados e suficientes."

O empresário diz que se sente tranquilo em seu país de origem neste momento. "Na minha região não há novos casos há mais de 20 dias. Em comparação com o atual cenário do Brasil, a China está mais segura agora."

O caso dele não é único. Um imigrante que mora no Rio e não quis ser identificado contou à reportagem que uma colega de seu filho na escola viajou para a China por esse motivo há cerca de um mês. Segundo ele, a decisão que parecia absurda naquele momento agora tem feito inveja em outras pessoas.

Para o infectologista Jamal Suleiman, do hospital Emílio Ribas, é preciso avaliar bem se vale a pena entrar em um avião para sair do Brasil neste momento. "Estamos vivendo uma pandemia, que é uma epidemia no mundo inteiro. O vírus está espalhado. O que pode mudar é a estratégia de cuidado e a infraestrutura de assistência. Mas tem que tomar cuidado com essa avaliação. Se eu considerar a Alemanha, pode ser seguro ir. Já ir para os EUA ou para alguns outros países europeus não faz nenhum sentido."

Ele também lembra que a pessoa vai ter que ficar um tempo confinada no lugar de destino, pois está saindo de um país onde há transmissão sustentada da doença.

Além disso, espaços fechados e cheios de gente como aeroportos e aviões favorecem o contágio. "Usar máscara, lavar as mãos, tudo isso reduz muito a chance de transmissão, mas não acaba com o risco. Fora que ninguém passa o tempo todo do voo com máscara. A pessoa vai parar para comer, por exemplo."

No Peru, família viajante desiste de voltar ao Brasil Naturais de São Roque (SP), Rodrigo Nunes, 40, e sua família estão fora do Brasil desde agosto de 2017. Ele e a mulher Andreia, 43, estão rodando o mundo com as filhas de 8 e 10 anos e um cachorro em um ônibus transformado em casa. Quando estourou a pandemia do coronavírus, estavam no norte do Chile, indo para o Peru.

Atravessaram a fronteira e estavam em uma cidade de 200 habitantes quando o presidente peruano decretou o fechamento das fronteiras terrestres e aéreas do país. A família, que vive da venda de um livro com dicas de viagem, se viu sem poder sair do motor home nem se deslocar para lugar nenhum, já que as fronteiras internas também foram fechadas.

Pesquisaram, então, opções para voltar para o Brasil por terra. Uma delas seria apelar ao Itamaraty, que tem negociado a repatriação por via aérea de brasileiros, para conseguir uma autorização do governo peruano e ir até a fronteira com o Acre. Depois de refletir, porém, preferiram ficar por lá.

"Queríamos sair porque aqui estava duro demais. Mas vimos que no Brasil a epidemia está se alastrando. No Peru, talvez pelo menor volume de pessoas e pela maior organização, o crescimento está muito menor. Achamos mais seguro ficar aqui do que voltar para o Brasil neste momento", acrescenta.

Até agora, foram registrados no Peru 416 casos e sete mortes por coronavírus. No Brasil, são 1.980 casos e 34 mortes.

A família conseguiu autorização do governo peruano para ir até uma cidade próxima, Tacna, onde se instalou no estacionamento de um estádio esportivo. "Viemos escoltados pela polícia. Nos ofereceram esse lugar, que é seguro, confortável, com gramado para as meninas brincarem. E até agora não teve nenhum caso de coronavírus nessa área", conta Rodrigo.

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