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Lemas, cartazes e roupas dão apelo pop a protestos e unem manifestantes

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Quem observa os cartazes dos manifestantes de Hong Kong pode se confundir e pensar que se tratam de propagandas de festas, tamanho o apuro visual.

Da mesma forma, ao ver as fotos de milhares deles vestindo preto e cantando músicas de protesto, pode-se ter a impressão de que ali haverá a apresentação de um musical.

Os milhares de ativistas que tomaram as ruas do território nos últimos dois meses para protestar contra um projeto de lei de extradição manifestam suas demandas por meio de uma estética própria.

A assinatura se desdobra no campo visual, com cartazes e adereços, e no sonoro, com cantos específicos.

O aspecto artístico confere às manifestações certa padronização, como se elas fossem uma marca facilmente reconhecível. Simultaneamente, a maioria dos participantes adota as mesmas táticas de ativismo e de proteção.

Depois que uma jovem foi atingida no olho por uma bala supostamente disparada pela polícia em ato no domingo (11), cartazes que lembram mangás passaram a ser distribuídos no Telegram.

Um deles mostra uma garota cujo olho foi substituído por uma rosa soltando pétalas, as mãos juntas como se rezasse ou pedisse clemência. Um outro representa uma jovem olhando de frente para a bala, prestes a ser atingida.

E há imagens ligadas à cultura pop. Um cartaz tem o fantasminha de "Os Caça-Fantasmas" com o lema "be water", referência à frase "seja água, meu amigo", de Bruce Lee.

A máxima do ator e lutador faz alusão à adaptabilidade do líquido, habilidade desenvolvida pelos manifestantes para escapar da polícia --ativados por aplicativos de mensagens, grupos surgem em determinados distritos para, pouco tempo depois, desfazerem-se e reaparecerem em outros.

Para Kong Tsung-gan, autor de dois livros recentes sobre a luta pela democracia no território, os cartazes servem "para comunicação nas mídias sociais e ajudam a criar um senso de experiência compartilhada e identidade para Hong Kong".

Há também paredes preenchidas do chão ao teto por post-its coloridos. As chamadas "Lennon Walls" trazem mensagens como "não à extradição para a China", "nós amamos Hong Kong", e "abaixo à brutalidade da polícia".

À comunicação visual impactante juntam-se os atos: depois de a jovem ser atingida no olho, ativistas passaram a usar tapa-olhos de gaze, com uma mancha vermelha em alusão ao sangramento causado pelo ferimento.

"Os tapa-olhos mostram solidariedade a ela e, por extensão, a todos os manifestantes feridos devido à violência policial", completa Tsung-gan.

Essa solidariedade se estende para o uniforme básico dos atos: camiseta preta, capacete de obra, máscara de enfermagem ou de gás, óculos de proteção e guarda-chuvas.

Os itens são usados por razões práticas e não foram, a princípio, adotados com finalidades estéticas, embora tenham adquirido apelo visual.

As roupas pretas foram utilizadas em uma das primeiras manifestações, em 16 de junho, que reuniu 2 milhões de pessoas. Como todos vestiam a mesma cor, tornou-se difícil para a polícia reconhecê-los individualmente. A tática de camuflagem dura até hoje.

Já máscaras e capacetes servem para a defesa em diversas situações. A mais corriqueira é a proteção contra gás lacrimogêneo, spray de pimenta, balas de borracha e ataques com cassetetes de policiais.

O capacete também foi útil quando gangues munidas de bastões de madeira agrediram ativistas na estação de trem de Yuen Long, em julho.

Suspeitava-se que os agressores tivessem sido encorajados por Pequim, que vem ameaçando tratar os manifestantes com "mão de ferro".

Resgatadas neste ano, as sombrinhas (quase sempre amarelas) foram usadas pela primeira vez no ato pró-democracia conhecido como Movimento dos Guarda-Chuvas, de 2014, quando mais de 100 mil pessoas ocuparam pacificamente o distrito financeiro pedindo eleições diretas.

O guarda-chuva protege do ataque direto de uma bomba de efeito moral, mas não é efetivo em deter a expansão do gás. Para neutralizar parcialmente o efeito gasoso, os manifestantes costumam jogar água sobre a bomba tão logo ela entra em ação.

Por outro lado, sombrinhas ocultam o rosto de participantes que agem em grupo, assim como a combinação de máscara, capacete e óculos ajuda a se esconder das câmeras de segurança. Manifestantes identificados e acusados de terrorismo podem pegar até dez anos de prisão.

Os honcongueses também trouxeram do Movimento dos Guarda-Chuvas a canção "Do you hear the people sing?", uma das mais conhecidas do musical francês "Os Miseráveis". "Você ouve o povo cantar? / Cantando a música dos homens raivosos / É a música de um povo / que não será escravo de novo", diz a letra.

Depois de reaparecer neste ano, a música foi censurada em dois serviços de streaming populares na China continental: embora apareça nas buscas, não pode ser executada.

Já um dos slogans-chave têm sido "libertar Hong Kong, a revolução do nosso tempo", usado anteriormente pelo ativista Edward Leung, um dos líderes do movimento pela independência em 2016.

"Todos usam esta frase, independentemente da idade ou do grau de radicalismo. É um tributo a Leung, assim como representa um sentimento 'patriótico' de que todos nós estamos lutando por Hong Kong", diz Tsung-gan.

O espírito de solidariedade é visto de forma mais pragmática pelo ex-diplomata Fausto de Godoy, coordenador do Núcleo de Estudos Asiáticos da ESPM. Ele afirma que "todo mundo de preto aparece melhor numa tela de TV".

A cor da roupa mostraria melhor a aglomeração, a massificação de um protesto que precisa do apoio internacional para dar legitimidade às suas demandas.

O uso politico do caso Alejandro

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