'Diário do Fim do Amor' pensa a literatura feminina ao tecer relatos pessoais
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ingrid Fagundez se apresenta como diarista, uma pessoa que escreve diários. Apegada ao hábito desde a pré-adolescência, a agora professora de escrita criativa transforma esses registros pessoais em seu primeiro livro.

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"Diário do Fim do Amor", lançamento da editora Fósforo, intercala trechos do diário de Fagundez sobre um amor encerrado com reflexões sobre esse gênero literário.
"Para escrever o livro, juntei as referências da minha infância e adolescência como leitora de diários com referências da minha pesquisa de mestrado sobre as relações entre a literatura e a realidade", conta.
O diário é um gênero de não ficção devido a sua intenção de relatar a verdade, por mais que esse seja um processo mais subjetivo do que objetivo. Pautado por impressões e sentimentos, o diário é uma forma de aprisionar os dias pela linguagem, segundo a autora.
Para o biógrafo francês Philippe Lejeune, diários são uma série de vestígios datados que expõem um conflito entre o tempo objetivo, aquele marcado pelos relógios, com o tempo da experiência.
No livro, a autora não usa datas precisas, mas se guia pela duração de um amor. Ela se refere aos anos um, dois e três -o início, o meio e o fim do relacionamento. "Fez mais sentido marcar o tempo do sentir porque o livro não se debruça sobre eventos externos, mas sobre o que acontece dentro da narradora."
Ao longo da obra, Fagundez insere trechos dos diários de outras mulheres escritoras, como Marina Colasanti, Simone de Beauvoir e Susan Sontag, em meio a seus relatos.
Essa reunião de vozes femininas se dá porque, historicamente, os diários serviram como espaços de preparação e experimentação de escritoras, onde elas aprenderam a fortalecer sua voz narrativa antes de apresentá-la ao público.
"O diário é esse caderninho protegido dos olhos dos outros em que você cria um diálogo com um outro possível", diz Fagundez.
Diferentemente dos livros, em que o autor sabe que está escrevendo para alguém que vai ler, o diário é escrito sem essa certeza. "O leitor pode ser você no futuro, sua irmã bisbilhoteira ou um neto que vai encontrar esse caderno numa caixa daqui a 60 anos", diz Fagundez.
Entre tantas experiências e casos amorosos colecionados ao longo da vida, a autora escolheu falar em "Diário do Fim do Amor" sobre uma paixão que coincidiu com sua formação como escritora. "Essa relação amorosa impulsionou minha aproximação com a literatura."
Para escrever o livro, Fagundez releu seus próprios diários de anos atrás. Foi um processo de estranhamento e reconhecimento. "Os diários ligam você a suas versões anteriores, mas também mostram que você mudou".
Hoje, ela vê na sua versão que escreveu o diário uma ingenuidade e um fogo nos quais não se reconhece mais.
Enquanto o diário é um companheiro bondoso que aceita tudo -lamentações, hipocrisias, vitimizações e infinitas abordagens sobre o mesmo assunto- o livro exige um projeto.
Ao escrever "Diário do Fim do Amor", Fagundez entendeu que precisava tornar seu romance frustrado em algo além de sua experiência. O livro oferece um espaço onde o leitor pode projetar suas próprias vivências.
Fagundez escolheu falar da paixão como uma experiência humana. Para ela, o amor e o luto, dois grandes mistérios da existência, estão sempre presentes na vida e, consequentemente, nos diários. "A gente continua escrevendo sobre esses temas porque não consegue controlá-los. A literatura não cura, ela cutuca a ferida."
DIÁRIO DO FIM DO AMOR
Preço R$ 79,90 (216 págs.)
Autoria Ingrid Fagundez
Editora Fósforo

ASSUNTOS: Arte e Cultura