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Novo governo alemão quer Europa menos tolerante com Orbán

Por Folha de São Paulo

31/03/2025 11h46 — em
Mundo


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BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) - Documento vazado para a imprensa mostra que a coalizão de governo de Friedrich Merz, vencedor das eleições parlamentares de fevereiro na Alemanha, trabalhará por uma União Europeia menos tolerante com atos e discursos antidemocráticos. As medidas parecem desenhadas para conter a rebeldia do líder autocrata Viktor Orbán, da Hungria, apesar de seu nome não aparecer nas discussões.

Segundo o site Politico, que teve acesso a um rascunho da negociação empreendida pela aliança conservadora de Merz, formada por CDU e CSU, e o SPD, do atual premiê, Olaf Scholz, o novo governo alemão deverá exigir que o bloco retenha fundos e suspenda os direitos de voto de países que violam princípios fundamentais, como o Estado de Direito.

Orbán tem um longo histórico de violações na área, com interferências no Poder Judiciário e no setor de mídia da Hungria e ofensivas contra movimentos LGBTQIA+.

O parlamentarismo alemão demanda uma negociação firme entre os partidos que compõem uma coalizão de governo. Não apenas a divisão de poder e cargos, mas também as políticas de governo são discutidas à minúcia. O debate abrange de questões puramente domésticas, como o subsídio ao transporte coletivo, às mais complexas, como imigração e segurança.

O governo Scholz, por exemplo, começou em 2021 apenas depois que 177 páginas de acordo foram exaustivamente discutidas pelos três partidos de sua coalizão (SPF, Verdes e FDP). Merz planeja começar sua gestão logo após a Páscoa, em 23 de abril, mas a negociação com os sociais-democratas ainda tem diversos pontos de atrito.

O papel da Alemanha na política europeia não parece ser um deles. "Os instrumentos de proteção existentes, desde processos de infração e retenção de fundos da UE até a suspensão de direitos de associação, como votar no Conselho da UE, devem ser aplicados de forma muito mais consistente do que antes", diz trecho do rascunho destacado pelo site de notícias.

O primeiro-ministro húngaro coleciona contingências com os pares europeus. Há duas semanas, por exemplo, ameaçou barrar a renovação das sanções do bloco contra oligarcas e militares russos, que precisam ser renovadas a cada seis meses. Cedeu apenas após 11 horas de reunião e a retirada de quatro nomes da lista, entre eles o de Mikhail Degtyarev, presidente do Comitê Olímpico da Rússia.

Na semana passada, patrocinou a aprovação no Parlamento húngaro de uma lei que proíbe a versão local da Parada Gay, assim como restringe o direito de assembleia. Dias antes, Orbán se posicionou contra a proposta do Conselho Europeu de reservar 150 bilhões de euros em empréstimos para os países que aderissem a um plano de rearmamento no bloco.

Nesta semana, em uma provocação ao Tribunal Penal Internacional, anunciou que receberá em Budapeste o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Ainda que a ordem de prisão por crimes de guerra em Gaza seja tema controverso na União Europeia, Orbán será o primeiro líder do continente a ignorar a decisão da corte.

Em 2018 e 2022, violações ainda mais evidentes de Orbán a regras da União Europeia ativaram mecanismos disciplinares. Nos dois casos, os processos patinaram ou foram amenizados por força de aliados. O líder húngaro disputa com a premiê italiana, Giorgia Meloni, certa ascendência sobre os populistas europeus. Nesta segunda-feira (31), ele foi um dos primeiros a se manifestar após a condenação de Marine Le Pen na França por desvios de fundos do Parlamento Europeu. "Je suis Marine", escreveu o premiê no X.

No caso da Alemanha, a proximidade de Orbán com Vladimir Putin incomoda mais. Merz, como boa parte da Europa, é cético em relação à tentativa de cessar-fogo na Ucrânia organizada pelo presidente americano, Donald Trump.

Desde a campanha, defende uma Alemanha rearmada e mais agressiva nas relações internacionais, argumento que usou para aprovar, antes mesmo de se tornar premiê, o maior pacote de estímulo do país desde a reunificação.


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