'Parthenope' é filme cafona de diretor que queria ser Fellini
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FOLHAPRESS - Paolo Sorrentino é um napolitano que ama sua cidade, mas gostaria de ter nascido Fellini. Em "A Grande Beleza", tentou fazer o seu "A Doce Vida". Errou feio. Querendo registrar o decadentismo de Roma no século 21, como Fellini o fez em 1960, terminou por fazer propaganda daquele universo brega-chique.
Em "Parthenope", seu mais recente longa, parece não ter um único filme de Fellini como guia, mas vários deles, a começar por "Satyricon" e "Casanova", citados discretamente no início. Sorrentino ainda imita o tipo de montagem que fez a diferença nos filmes de Fellini, principalmente na fase Ruggero Mastroianni de 1965 em diante.
Depois de uns tantos minutos, a sanha felliniana dá um tempo e o filme volta a parecer propaganda, a não ser quando alude a outros filmes, como "Fedora", de Billy Wilder, por exemplo. E mais tarde, Wilder será mencionado como um antropólogo.
Há algo de irônico nas imagens em câmera lenta e no clima de eterna sedução. Mas também há algo que gira em falso nessa ironia. Sorrentino talvez tenha se contaminado pela burguesia cafona que procura mostrar de forma irônica. Ou está competindo na mesma raia de Luca Guadagnino.
A personagem que dá nome ao filme é uma jovem napolitana que já aos 18 anos enfeitiça diversos homens por sua beleza ao mesmo tempo em que os afronta por sua inteligência. Com 20 e poucos, passa a afrontar e seduzir, também pelo intelecto, seu professor universitário e mentor no curso de antropologia.
Parthenope é o nome de uma ninfa, uma sereia que enfeitiça os homens e os atrai para o mar. Por isso a vemos saindo do mar e enfeitiçando o jovem logo no início do filme, sem sabermos direito quem são os personagens.
Segundo a mitologia grega, ela teria se afogado no mar após ter falhado em enfeitiçar Ulisses, sendo encontrada numa localização onde será construída a cidade com o seu nome, que mais tarde teria o nome mudado para Nápoles. Por isso quando ela nasce, num parto realizado dentro da água, o poderoso patriarca estende sua mão para a beleza da cidade litorânea do sul da Itália e batiza o bebê Parthenope.
Vivida em sua juventude por Celeste Dalla Porta, em seu primeiro papel no cinema, a personagem funde a cabeça dos homens quando pergunta, por exemplo, se eles concordam que "o desejo é um mistério e o sexo seu funeral". Dalla Porta, aliás, lembra a atriz Mia Sara, de "Curtindo a Vida Adoidado".
Em toda a primeira parte, vemos esse jogo de sedução entre ela e o irmão, com quem tem uma relação quase incestuosa. Outros jovens e homens ricos disputam seu corpo, ou mesmo alguns momentos de sua atenção. Ela se divide entre as festas e o estudo na universidade.
Até que, após uma tragédia familiar, ela conhece uma agente de cinema, e é apresentada a um mundo em que os prazeres mundanos encontram uma dose maior de crueldade. E o filme, que já estava na corda bamba entre a imagem puramente publicitária e a crítica, sucumbe definitivamente à insignificância.
Não fica por aí. Estamos numa releitura de Alice, mas no país das futilidades, em que nem a igreja católica é poupada do esculacho. As imagens que exalam algum charme tornam-se cada vez mais raras, e o mau gosto de Sorrentino, que havia sido deixado de lado na maior parte de seu melhor filme, "A Mão de Deus", aqui aparece com generosidade.
Tudo vira publicidade. O embate entre os estudantes e a polícia parece propaganda de jeans. Uma festa pode servir como propaganda de cartão de crédito. As insistentes imagens das cortinas voando ao vento remetem a um catálogo de imagens publicitárias dos anos 1990. A ironia já não é mais desculpa. É mau gosto do mau gosto.
Até mesmo as participações de Stefania Sandrelli, grande atriz italiana, como Parthenope em idade avançada, e da instituição britânica em forma de ator, Gary Oldman, como o escritor norte-americano John Cheever, são lamentáveis desperdícios.
A culpa certamente não é da atriz principal. Podemos colocá-la toda na conta de Sorrentino. Mas até as respostas de Parthenope se tornam pouco imaginativas, como se a inteligência dela, antes acima da média, tivesse decaído junto com o filme.
A personagem é como Nápoles. Ela mesma se define assim. Um entroncamento de contradições nem sempre harmoniosas, o que deveria a tornar rica, mas Sorrentino jamais encontra o caminho para esse retrato.
PARTHENOPE: OS AMORES DE NÁPOLES
- Avaliação Regular
- Onde Nos cinemas
- Classificação 18 anos
- Elenco Dario Aita, Antonio Annina, Margherita Aresti
- Direção Paolo Sorrentino

ASSUNTOS: Arte e Cultura